David Cavallo: Usos participativos da tecnologia devem prevalecer nas escolas
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Ter, Dez

David Cavallo: Usos participativos da tecnologia devem prevalecer nas escolas

Tecnologia na educação
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David Cavallo é referência internacional na área de computação e educação e dirige o grupo de pesquisa “Future of learning” no Instituto de Tecnologia de Massachusetts - MIT.

 

David Cavallo é referência internacional na área de computação e educação e dirige o grupo de pesquisa “Future of learning” no Instituto de Tecnologia de Massachusetts - MIT.

Nesta entrevista exclusiva ao Educação e Vida, descreve quais as tendências do uso participativo de tecnologia em sala de aula e como experiências da Europa, África e Ásia podem colaborar para pensar a realidade brasileira.

João Paulo Barbosa: Quais as principais tendências do uso da tecnologia em sala de aula no mundo?

David Cavallo: O elemento mais importante a abordar aqui talvez seja o uso da tecnologia no contexto da "sala de aula". Se tratarmos sobre os usos da tecnologia para a aprendizagem, ou para a investigação, a criatividade, a realização consciente, o codesign e a cocriação, resolver de forma colaborativa problemas complexos (como em jogos com multijogadores), então, usos muito diferentes nos vêm à mente. Estamos acostumados com falta de poder de ideias e tecnologias nas salas de aula. No entanto, realmente não deveríamos aceitar isso.

Os usos mais poderosos das novas tecnologias para a aprendizagem devem estar presentes mais na sala de aula do que em outros lugares, já que a sala de aula é o lugar fundamental para a aprendizagem. Infelizmente, esse não é o caso. Enquanto as tecnologias computacionais criaram as condições para o crescimento rápido sem precedentes do conhecimento no mundo, isto é, aprendizado sem precedentes, não tiveram o mesmo impacto em nossas escolas, em qualquer lugar do mundo.

Todos aceitam que o mundo mudou fundamentalmente nas últimas décadas, e que o ritmo das mudanças continuará a aumentar. Deve ser óbvio que a tecnologia computacional está na raiz dessa transformação. Qual outra razão poderia ser? Os seres humanos não se tornaram mais inteligentes tão rapidamente através da evolução. Em vez disso, a tecnologia digital é usada para explorar, modelar, expressar rapidamente ideias, testá-las, receber feedback, modificar as ideias e continuar o processo até chegar a um nível de satisfação; assim, visualizar, colaborar, comunicar e criar mundos para exploração permitiram o crescimento do conhecimento que transformou praticamente todos os campos e criou campos totalmente novos.

Esses poderosos usos para aprender devem prevalecer nas salas de aula. Infelizmente, o que prevalece é um uso contínuo da tecnologia para transmitir informações sobre fenômenos e ideias a estudantes relativamente passivos, pois isso se encaixa mais com modelos de escolas anteriores.

O que é ainda mais estranho é que mais e mais de nós estamos tendo experiências tão poderosas fora da escola, mas continuamos a reproduzir modelos empobrecidos de aprendizagem, apesar das evidências e de nossas próprias experiências. Felizmente, as crianças estão conseguindo mais acesso a esses poderosos usos e deixarão de respeitar os usos empobrecidos.

A desigualdade é um grande problema. É responsabilidade da educação pública e dos governos democráticos fornecer tais experiências de aprendizagem a todas as crianças. Infelizmente, aqueles com mais recursos também estão recebendo maiores oportunidades. Isso precisa mudar imediatamente, uma vez que a desigualdade é um flagelo na sociedade, criando um mundo injusto e insustentável.

Por outro lado, há uma enorme quantidade de modelos exemplares de uso da tecnologia para aprender, inclusive no Brasil e no Rio de Janeiro. De fato, alguns dos melhores usos da tecnologia para aprender foram criados no Brasil e praticados há mais de 30 anos. O Brasil tem uma incrível história de inovação para o aprendizado, inovação com o uso da computação e a adoção de novas ideias e tecnologias. O Brasil tem a maior taxa de uso per capita de redes sociais, de escrita e publicação de imagens e vídeos, mesmo com a desigualdade de acesso.

Portanto, o que tem sido lento para mudar não é a adesão e o uso sofisticado da tecnologia digital. Pelo contrário, é o ambiente da sala de aula. Ao invés de abraçar atividades de aprendizado mais poderosas habilitadas pela tecnologia, os educadores e os administradores continuam contentes com o simples uso da tecnologia para transmitir lições, como é mais comum na aprendizagem à distância. O poder na tecnologia não é apenas na sua capacidade de transmitir informações.

Em vez disso, o poder único e transformador é como uma ferramenta pode ser usada para imaginação, design, criação, construção e colaboração. Estas são formas de aprendizagem mais ativas. E as pessoas aprendem melhor quando estão ativamente envolvidas em projetos de interesse. A tecnologia computacional permite isso e não apenas a transmissão de palestras e a apresentação de textos.

Há um segundo aspecto essencial que deve ser abordado. Enfocamos principalmente a criança individual, o que, é claro, é essencial. No entanto, também devemos abordar como o sistema educacional pode aprender para mudar. Seymour Papert (1928-2016; matemático e educador americano) e eu achamos útil aplicar o modelo da economia, pensando em micro e macro escalas, para melhor compreender determinados fenômenos.

É evidente que o sistema educacional não muda apenas por ser informatizado. Não importa o quão maravilhoso seja um novo plano de reforma, ideia piloto ou um novo currículo, se não prestarmos atenção a como o sistema e seus componentes podem aprender a implementar verdadeiramente as novas ideias. Dessa forma, permaneceremos enfrentando os problemas de um sistema educacional que não atende às necessidades de um mundo em rápida mutação.

Nós temos exemplos de como os sistemas podem mudar e as organizações podem aprender, dentro e fora do campo educacional. Assim como os estudos organizacionais aprenderam a importância da aprendizagem e de como criar um ambiente de aprendizagem, também precisamos prestar atenção nisso na implantação da transformação educacional. Apenas criar um plano maravilhoso é insuficiente para alcançar as mudanças desejadas. Precisamos pensar melhor sobre como implementar as mudanças em todo o ecossistema educacional ou então continuaremos a ser frustrados com a falta de mudança apesar do investimento.

Existem exemplos fortes de aprendizagem sistêmica, bem como de indivíduos. Não só existem precedentes em grandes organizações das quais podemos aprender, mas alguns países conseguiram mudar drasticamente seu sistema educacional, aumentar a equidade e uma abordagem mais progressiva da educação. A Finlândia, talvez, seja o melhor exemplo disso.

Ainda assim, precisa-se desenvolver algo novo que se encaixa no país e seus ideais e princípios, fornecendo tempo, continuidade e recursos suficientes para que as mudanças ocorram em todo o sistema; "depurar" a abordagem para que o que não funciona tão bem quanto esperado possa ser melhorado e as surpresas agradáveis surgidas possam ser reproduzidas (isto é o que eu mencionei em outro lugar como "design emergente"); abordar todo o sistema e não apenas as partes individuais; concentrar-se na aprendizagem e, como existe na Finlândia, desenvolver professores que sejam pesquisadores em aprendizagem.

João Paulo: Há um modelo ou modelos exemplares de bom uso da tecnologia em sala de aula que poderiam ser aplicados à realidade do Rio de Janeiro ou do Brasil?

David Cavallo: Há tantos exemplos de poderosa aprendizagem em micro escala facilitada pela tecnologia que hesito em mencionar alguns para não desvalorizar outros. Encontrar exemplos poderosos é relativamente fácil. Mais uma vez, penso que os principais fatores fundamentais incluem a criação de um ambiente para a aprendizagem ativa, construtiva e expressiva, usando a tecnologia como material criativo; facilitação por adultos apaixonados e experientes; concentrar-se na aprendizagem ativa e não apenas na recepção passiva de informações.

Vou mencionar dois exemplos em que estive pessoalmente envolvido aqui no Brasil. Desenvolvemos, em colaboração com as escolas públicas de São Paulo e simultaneamente nas escolas da Fundação Bradesco, um projeto chamado "A Cidade que a Gente Quer", inspirado nas ideias de Paulo Freire, nos quais os alunos imaginaram e conceberam ideias de como gostariam de ver sua comunidade melhorada. Em seguida, criaram modelos computacionais funcionais de suas ideias. Através da construção usando materiais computacionais, precisavam aprender e aplicar ideias importantes da matemática, da física e de outras áreas técnicas, mas também aplicavam suas ideias à área de humanidades.

Os estudantes também tiveram que documentar seus projetos, que não só forneceram desenvolvimento para suas habilidades de comunicação, mas também forneceram uma base para a reflexão sobre as ideias. Por causa do tema gerador da melhoria da comunidade, combinado com a democratização do projeto, estudantes se envolveram, mesmo estudantes que anteriormente odiavam a escola e não estavam bem. Além disso, ao ter que aplicar as ideias de computação, engenharia, matemática e ciência, os conhecimentos que teriam que ser usados mais tarde não foram perdidos, mas assimilados com sucesso para que os projetos funcionassem.

Outro exemplo é um pouco diferente e ocorreu em uma escola rural no Rio Grande do Sul. Uma pequena escola foi selecionada para que todos os alunos e professores recebessem laptops ou tablets para incorporar ao ambiente de aprendizagem. Uma das professoras mais velhas estava bastante assustada no início, preocupada por não poder dominar suficientemente a tecnologia para usá-la para o ensino. No entanto, como uma grande professora, se importou profundamente com seus alunos e os reconhecia como protagonistas.

A professora estava aberta para permitir que os alunos seguissem projetos de interesse. Ao invés de tentar ensiná-los sobre essas áreas, ajudou os alunos a pesquisar os projetos (os alunos escolheram o sistema solar, entre outros, como um dos principais objetivos de estudo) e ajudou a encorajá-los e discutir sobre como melhorar os projetos e aprofundá-los, usando a tecnologia não só para pesquisar, mas para construir modelos e demonstrações. Os alunos avançaram para projetar veículos que praticamente explorariam o espaço, construindo modelos de como seria a vida em outros planetas, o que teria que ocorrer para tentar habitá-los, o quão grande poderia ser para se mover em Júpiter e assim por diante. Ao invés do desastre que a professora temia, a nova oportunidade proporcionou um potencial de aprendizagem para seus os e para ela.

Outra professora da mesma escola não teve tanto sucesso. Ela costumava tentar ensinar a ler e escrever através de parágrafos no quadro-negro e mandando seus alunos copiá-los para os cadernos. A professora ficou satisfeita em dar aos alunos um link para os parágrafos que ela esperava que copiassem em seus dispositivos. Não surpreendentemente, a experiência não funcionou bem. Isso demonstra que o que é essencial não é a mera posse de dispositivos, mas em que atividades de aprendizado os alunos e os professores se envolvem.

João Paulo: Dados do Tribunal de Contas do Município do Rio de Janeiro apontaram que 77% das escolas públicas com computadores não os usam para as atividades escolares. Muitos professores alegam que não há infraestrutura nas escolas, não possuem formação na área, não há manutenção dos aparelhos ou professores especializados. Afinal, quais são os maiores entraves para a implantação da tecnologia nas escolas?

David Cavallo: Este é um assunto incrivelmente triste, mas muito comum. É principalmente um sinal, para mim, de resistência sistêmica à mudança e falta de uma abordagem sistêmica para gerar soluções. As pessoas usam esses exemplos como razões contra a tecnologia, mesmo que a tecnologia potencialmente permita uma aprendizagem mais profunda por parte dos indivíduos, bem como caminhos para superar as limitações locais de acesso ao conhecimento e à experiência.

Nunca tive minha experiência de que professores sejam resistentes a mudanças que possam melhorar a educação. Quase todos os professores que conheci e tenho o prazer de colaborar são pessoas dedicadas que trabalham para superar tremendos obstáculos com recursos preciosos. São mal pagos e subestimados, o que faz parte da resistência sistêmica.

Em um projeto em São Paulo, realizamos várias reuniões com professores antes de iniciar o projeto. Os professores estavam abertos ao novo projeto, mas no começo nos disseram como quase sempre os administradores da Secretaria de Educação ou do Ministério da Educação, ou pesquisadores universitários, vêm e dizem-lhes o que fazer sem buscar a contribuição dos professores. Os professores dizem-lhes o que vai mal e o que precisa mudar, não para ser resistente, mas para ser útil para a reforma ter sucesso. Os professores sempre foram ignorados. Então, quando o projeto não teve sucesso, os professores foram culpados. Isso dificilmente é uma maneira de conseguir mudanças positivas! Muitas vezes, as coisas são ditadas do topo, sem a troca de um nível para o outro, e eventualmente contam com a participação das crianças. Isso não é eficaz, mas também é contrário aos ideais da educação em uma sociedade democrática.

Nós abordamos isso de forma diferente, como parceiros na mudança. Na engenharia, este é um design participativo, que é quase sempre preferível. No entanto, normalmente, não é praticado na educação. Quando transmitimos algo novo e desconhecido para os professores e alunos, tentamos criar um espaço onde podemos mostrar o que é novo e possível sem ditar exatamente o que deve ser feito. Não podemos esperar que os professores e estudantes inventem tudo. Por outro lado, não podemos nem devemos ditar tudo para eles. Em vez disso, nós codesenhamos o que fazer e como fazê-lo, em seguida, trabalhamos juntos para refletir e redesenhar os projetos à medida que avançamos.

Há outro elemento sutil que impede a mudança. Como as possibilidades mais poderosas são estranhas à experiência da maioria dos professores e alunos, o acesso à experiência para se candidatar de forma prática é escasso. No entanto, é aqui que a conectividade é essencial.

Ao invés da sala de aula tipicamente "virada", onde um especialista externo dá a palestra, podemos usar a tecnologia não para transmitir palestras, mas sim apoiar projetos de aprendizado inovadores.

Também precisamos de novos conteúdos que aproveitem as novas tecnologias para ajudar os alunos a aprender as ideias mais poderosas nas áreas temáticas de maneiras mais holísticas e integradas. Ou seja, ao invés de usar as tecnologias para ensinar aos estudantes que odeiam matemática, como disse Seymour Papert, podemos criar uma matemática que os alunos adorariam.

João Paulo: Como foi e quais foram os principais resultados da implantação do uso de computadores em escolas africanas? Como o senhor enxerga os principais desafios do contexto africano?

David Cavallo: Aprendi muito durante todas as minhas experiências na África. Como o Brasil, a terra é variada e bonita. Também como o Brasil, as pessoas são incrivelmente amigáveis, abertas e vibrantes. Infelizmente, também como o Brasil, há muita desigualdade e os restos de exploração e colonização e neocolonização. Muitas empresas públicas não funcionam como necessário por falta de recursos, falta de infraestrutura e de suporte. O potencial humano e a criatividade são ilimitados. A tecnologia é praticamente ignorada e os problemas solucionáveis continuam a existir gerando uma catástrofe moderna. Além disso, como no Brasil, quando as pessoas que não tinham acesso à tecnologia moderna obtêm acesso, ficam tremendamente excitadas!

Há algumas coisas que ainda possuem forte resistência. Por exemplo, o tamanho médio das turmas é tremendamente alto. Os livros de texto são muito caros e raros ou terrivelmente desatualizados. O ex-ministro de Estado da Educação em Ruanda me disse que conhecia todos os rios da Bélgica e da França, mas não em seu próprio país, porque os poucos livros didáticos que eles tinham vieram dos colonizadores e não de seu próprio país ou mesmo de seu próprio continente. O acesso a materiais modernos e de alta qualidade que tenham informações relevantes para a localidade e o país é fácil de fazer. No entanto, o sistema e os custos tornam isso proibitivo. Através de novas tecnologias, isso é facilmente superado. O mesmo é verdade para abordar os problemas do tamanho da turma.

O que falta é uma visão de como fazer isso e a vontade de realizá-lo. Infelizmente, as editoras educacionais e os países com alta tecnologia preferem lucros a um mundo mais justo e equitativo, com o aval dos governos. Quando algumas empresas de tecnologia tentaram entrar nos países africanos, em vez de promoverem melhores práticas educacionais, se promoveram de forma a maximizar seus lucros. Naturalmente, os resultados educacionais foram escassos. Os exemplos são muitos, mas não vou entrar em detalhes aqui.

O que é necessário é um plano sério e a vontade de implementá-lo de forma séria, levando em consideração as realidades muitas vezes difíceis da região, mas construindo algo para o desenvolvimento de sistemas educacionais de alta qualidade no futuro e não apenas tentando ganhar o mercado, deixando esses países irremediavelmente atrasados em um mundo em rápida mudança e interconectado.

João Paulo: Há lugares no Brasil em que o empobrecimento é muito grande e crianças não têm qualquer acesso a celulares e internet, mesmo nas escolas. Você acha que é possível ser otimista mesmo em relação a esses lugares cujas condições são similares a de lugares empobrecidos na África?

David Cavallo: O acesso igual é um problema sério, como você menciona. Analisando o quanto da vida se transformou com a tecnologia e a internet, além das grandes possibilidades sem precedentes que agora estão disponíveis através da computação e da conectividade, não ter acesso total torna o cidadão incompleto, ou sem direitos completos. Todos devem ter acesso a dispositivos computacionais e conectividade de banda larga.

Dispositivos e conectividade também são muito mais caros, frágeis e não ecológicos do que precisam ser. Isto é o que tentamos abordar incentivando um laptop por criança. Até certo ponto, hoje estamos sendo bem-sucedidos, porque os dispositivos estão muito mais abundantes, variados e mais baratos do que no começo. Ainda assim, há muito mais progresso a ser feito e a pressão deve ser colocada nos governos e na indústria para melhorar as condições para todos.

O que é irônico é que é do interesse de todos fazer isso, para garantir que todos tenham dispositivos e conectividade boa e barata para melhorar a educação, a saúde, a governança e a economia. A resistência a um acesso mais justo e igual protege um poderoso pequeno número em detrimento da grande maioria.

Ainda assim, é incrivelmente impressionante quantas pessoas no Brasil e na África têm smartphones. Nas aulas que ensino aos estudantes universitários de 1º ano na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), 100% dos estudantes possuem smartphones. O UFSB dá a cada aluno um laptop e todos os alunos recebem pelo menos um curso de pensamento computacional. Então, a situação está mudando.

O que não está mudando rapidamente é a resposta institucional a essas mudanças. Nós ainda agimos e planejamos como se o mundo e as abordagens para a educação estivessem presos em 1954 ou mesmo em 1927 ou talvez em 1897. Se alguém está atirando um foguete para aterrissar em Marte, não se planeja onde Marte está agora, mas sim onde Marte estará quando o foguete chegar. O planejamento educacional precisa olhar para onde estamos indo e não apenas onde estávamos.

O UFSB é uma tentativa inovadora de melhorar a qualidade educacional das populações anteriormente excluídas, do sul rural da Bahia, reservas indígenas, quilombolas e comunidades de movimentos sociais. Isso só é possível devido à conectividade significativamente melhorada e o acesso suficiente a dispositivos computacionais. No entanto, a UFSB não está apenas tentando transmitir palestras padronizadas em toda a rede, também está tentando criar o melhor ambiente de aprendizagem para os alunos, entendendo, melhorando e adaptando as melhores ideias para aprender de todos os lugares e para atender às condições do sul da Bahia. Os princípios para o ambiente de aprendizagem do UFSB são promover a aprendizagem ativa com base em projetos interdisciplinares e problemas de importância para a região e os alunos. O UFSB é um forte exemplo de busca para proporcionar educação de alta qualidade para todos, com base nas melhores ideias sobre aprender e usar a tecnologia digital para atingir os objetivos.

Um último ponto é essencial, mas muitas vezes esquecido. A maioria dos comentaristas discute as habilidades do século 21 de criatividade, colaboração, inovação, resolução de problemas, pensamento crítico, comunicação e fluência tecnológica. Estas são qualidades ricas em culturas brasileiras e africanas. Devido à criatividade, ao jeitinho e ao abraço de novas ideias e novas tecnologias, o Brasil e a África estão bem posicionados para estar na vanguarda do verdadeiro progresso no século XXI. No entanto, esses países não alcançarão esse progresso mantendo-se atolados a práticas educacionais obsoletas ou permitindo desigualdades persistentes. Com visão, vontade e implementação pragmática, o Brasil e a África podem inovar para mudar fundamentalmente seus países e o mundo. Brasil e África podem influenciar outros continentes à promoção de um mundo melhor, mais ecológico, mais justo, mais criativo e inclusivo, e não apenas seguir os ditames dos outros.

João Paulo: As crianças desde pequenas estão se tornando dependentes de tablets, celulares e internet. Isso altera a forma como lidam com as atividades cotidianas, pois alguns demonstram desinteresse por outras atividades mais simples. Quais podem ser os prejuízos dessa dependência dos recursos tecnológicos?

David Cavallo: Acredito que há uma tendência para colocar a causalidade na tecnologia para não abordamos os verdadeiros problemas. O uso de tecnologia é o que fazemos com ele. O uso da tecnologia reflete valores e condições. Isso não os causa. No que diz respeito à tecnologia, falamos de recursos e restrições, tentando maximizar os recursos de atividades positivas e usar restrições para minimizar as negativas.

Nunca nos queixaríamos de uma criança que precisa de óculos para ver corretamente como sendo "dependente" da tecnologia dos óculos. Desde o advento dos fogões não nos preocupamos nem com a dependência nem com a perda de outras habilidades. O ponto sobre a utilidade das novas tecnologias é que queremos usá-las por boas razões.

Quando temos a preocupação real sobre a desconexão da interação social facilitada pela tecnologia, não devemos confundir o resultado com a causa. A tecnologia pode proporcionar fuga para crianças, adolescentes ou adultos, mas isso não significa que é a causa ou o motivo do desejo de escapar. A tecnologia talvez amplifique o que existe, mas não causa a alienação, a separação ou a dependência.

Se quisermos abordar a separação, devemos abordar a causa. A causa não é a tecnologia. Portanto, devemos melhorar as relações sociais e a interação, remover a alienação, aumentar a participação e criar outras formas de interação entre as pessoas. É significativo que as aplicações tecnológicas mais populares envolvam interação social. E muitas vezes essas interações proporcionam um verdadeiro conforto, companheirismo e valor para os participantes. Portanto, como sempre com a tecnologia, devemos olhar para as atividades dentro e fora da tela, pelo valor real e não apenas na própria tecnologia.

João Paulo: Uma das críticas ao uso das tecnologias no processo educativo diz respeito à dominação cultural dos países de primeiro mundo sobre outros subdesenvolvidos. Por outro lado, na lógica globalizada, não podemos ficar à margem do que há de mais novo em termos de inovações tecnológicas. Como equilibrar esses polos tão distintos de pensamento?

David Cavallo: Não há dúvida de que as tecnologias, aplicações e ambientes possuem o valor de seus desenvolvedores. Também não há dúvida sobre a dominação do mercado. No entanto, também não há dúvida de que capacidade existe no Brasil e em outros lugares para fazer seu próprio desenvolvimento. Assim, precisamos criar condições e expectativas de desenvolvimento e não simples utilização.

Como mencionei, todos os meus estudantes universitários de 1º ano possuem smartphones. Perguntei-lhes quantos aplicativos eles têm em seus telefones. As respostas variaram entre 30 e 50. Perguntei-lhes a quantidade de aplicativos em seus celulares desenvolvidos no Brasil. No máximo, havia um. Perguntei quantos deles fizeram um aplicativo. Nenhum. Perguntei quantos deles tinham considerado fazer um aplicativo. Novamente, infelizmente, nenhum.

A limitação está na mentalidade e no acesso. Quando as pessoas estão em torno de outros que são desenvolvedores, vão pensar em desenvolver também. Como todo aluno da UFSB aprende a programar e faz isso de forma baseada em projeto, cada um deles agora pensa que pode e deve ser um desenvolvedor. Um grupo de mulheres jovens agora está desenvolvendo um aplicativo que informará a todos em um grupo que cada um chegou em casa de forma segura, pois as aulas terminam tarde da noite e a área pode ser perigosa para as mulheres. Isso, para mim, é incrivelmente habilitador para eles em múltiplos níveis.

Desta forma, a educação está a romper vários círculos viciosos. Um é uma dependência de outros para desenvolver novas tecnologias ou usar e, portanto, nunca sequer considerar desenvolver para si mesmos e para outros. Outro, em particular para a educação, é que a grande maioria dos alunos tem poucas experiências na escola em matemática e ciências e quase nenhum acesso à computação. Assim, aqueles que se tornam professores de matemática, ciências e computação não têm um histórico forte nessas outras áreas. Com isso, fornecem uma experiência empobrecida para seus alunos gerando um círculo vicioso.

Estamos eliminando isso de diversas maneiras e isso trará um benefício real para a região. Estamos construindo sobre o que é positivo na cultura e aplicando conhecimentos importantes a projetos reais de interesse. Os alunos obtêm acesso a conhecimentos que anteriormente não existiam para eles. Assim, estamos ajudando a construir uma cultura de ação, criatividade e desenvolvimento, usando as melhores tecnologias modernas.

João Paulo: Como é possível fazer uma inter-relação do uso de novas tecnologias com a pedagogia de Paulo Freire e a valorização da produção da cultura local?

David Cavallo: Acredito que o Brasil, de todos os países do mundo, tem a melhor chance de aplicar a visão de Paulo Freire em ambientes de aprendizagem, porque as ideias estão profundamente enraizadas na cultura e muitas pessoas foram profundamente influenciadas por Paulo Freire.

Quando começamos o nosso projeto na Tailândia, falamos sobre a inspiração de Paulo Freire para o nosso projeto para pessoas que não tinham ouvido falar dele. Começamos do zero e sem o benefício do conhecimento de suas ideias.

No Brasil, no entanto, as pessoas ficam aliviadas quando mencionamos Freire e sabem imediatamente o que queremos dizer. Assim, começamos a pensar de forma criativa sobre como aplicar as ideias de Freire ao uso da tecnologia.

Quando Paulo Freire era secretário de educação em São Paulo no início dos anos 1990, disse que havia entregado comida e camisas aos alunos e agora estava começando a trazer computadores para as escolas, para que os alunos da escola pública pudessem ter o melhor de uma Educação moderna.

Como mencionei, nosso projeto "A cidade que a Gente Quer" estava profundamente enraizado nas ideias de Freire e foi facilitado por muitos professores e administradores trazidos às escolas por Freire. Escrevi sobre isso, como o projeto tailandês e outros projetos nossos foram inspirados por Freire, então encorajo você a ler esses artigos.

Fonte: Portal Educação e Vida