Tecnologia pode aumentar a exclusão de pobres, mulheres e até jovens
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Sab, Set

Tecnologia pode aumentar a exclusão de pobres, mulheres e até jovens

Aparelhos eletrônicos se tornam aliados na educação
Notícias EAD
TIPOGRAFIA

 É difícil pensar em uma imagem que suscite maior sentimento de inclusão do que a de mulheres e homens de diferentes gerações, níveis sociais e nacionalidades conectados via internet ao redor do mundo.

 É difícil pensar em uma imagem que suscite maior sentimento de inclusão do que a de mulheres e homens de diferentes gerações, níveis sociais e nacionalidades conectados via internet ao redor do mundo.

E a velocidade com que a tecnologia tem permitido nossa aproximação —via redes sociais— e criado facilidades com o avanço da robótica, da inteligência artificial e da biotecnologia pode até criar a impressão de que caminhamos para essa realidade dos sonhos.

O desconcertante, porém, é concluir que quem pesquisa o tema tem alertado para o risco contrário: o de que a tão badalada nova onda de progresso tecnológico acentue nossas exclusões e desigualdades.

Esse é um dos recados mais veementes do livro “Aplicando a quarta revolução industrial”, de Klaus Schwab e Nicholas Davis, recém traduzido para o português.

A desigualdade de gênero é um dos muitos casos que os autores analisam. O problema começa com acesso.

A Web Foundation revelou em 2015 que, embora os adultos de ambos os gêneros, em nove países em desenvolvimento pesquisados, tivessem grande chance de possuir um celular, a probabilidade de as mulheres terem de acesso à Internet era 50% menor.

Menor renda ajuda a explicar, em grande medida, esse número. Em alguns países, barreiras culturais também são parte da questão.

No Brasil, dados mostram que o acesso à internet entre os gêneros é equilibrado —embora ainda baixo para todos. Mas isso não significa que estamos longe dos demais riscos de exclusão feminina no embalo da quarta revolução industrial, que se materializam de outras formas.

Uma delas é via distribuição ocupacional. Como ressaltam Schwab e Davis, as mulheres representam menos de 30% dos empregados em pesquisa científica e ocupam menos de 25% dos postos em tecnologia da informação em países desenvolvidos. A chance de uma mulher empreender na área tecnologia é substancialmente menor do que a de um homem. Em países em desenvolvimento como o Brasil, o cenário tende a ser pior.

O problema, apontam Schwab e Davis, é que o “viés de qualificações” atual parece favorecer justamente profissões em que a participação feminina permanece baixa. Já as funções que tendem a desaparecer – com o avanço da automação e da inteligência artificial —são os rotineiros, administrativos, repetitivos. Ou seja, ocupações onde a presença feminina ainda é grande.

As preocupações referentes às mulheres —no que tange a acesso e a profissões— também se aplicam, talvez em maior intensidade, aos mais pobres, muitos deles ainda não tocados por benefícios das revoluções industriais anteriores, como o saneamento básico.

E um relatório divulgado nesta semana pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) joga luz em outra questão pouco discutida: a vulnerabilidade dos jovens em meio ao frenético progresso tecnológico.

Essa colocação pode causar estranhamento se a pensarmos sob a ótica do acesso, já que a conectividade de adolescentes e jovens é maior do que a de adultos e idosos.

O problema, diz a OCDE, é o aspecto ocupacional. As profissões repetitivas e administrativas —as mesmas onde há muitas mulheres e pobres— também costumam ser a porta de entrada dos jovens para o mercado de trabalho.

Essas preocupações não eliminam os ganhos potenciais da quarta revolução industrial sobre a produtividade, a saúde pública, a segurança, a educação. Mas representam riscos cada vez mais reais que podem fazer com que esses benefícios sejam distribuídos de maneira extremamente desigual. Por isso, merecem atenção maior e urgente de governantes, empresários e sociedade civil.

Fonte: Folha