O Globo: Educadores pedem mais tempo para debater base do ensino médio
14
Qua, Nov

O Globo: Educadores pedem mais tempo para debater base do ensino médio

Ensino médio público a distância irá sucatear a educação no país
Notícias EAD
TIPOGRAFIA

Integrante da comissão que avalia proposta do MEC defende discussões até 2019, mas atraso pode afetar reforma do ciclo.

Integrante da comissão que avalia proposta do MEC defende discussões até 2019, mas atraso pode afetar reforma do ciclo.

POR RENATO GRANDELLE

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do ensino médio oferece poucos mecanismos para o aluno escolher a área de conhecimento que mais lhe interessa. O currículo das disciplinas não é claro. O tempo de aprendizagem é espremido e, por isso, muito conteúdo importante deixa de ser abordado. O diagnóstico foi apresentado em uma reunião ontem no Conselho Nacional de Educação (CNE) por um dos conselheiros, o sociólogo Cesar Callegari, que recomendou a rejeição do texto proposto pelo MEC e pediu mais tempo para a aprovação de um documento final. Ele propõe que a discussão se estenda até 2019. Especialistas ouvidos pelo GLOBO concordaram que é preciso fazer ajustes.

A revisão do documento atrasaria a reforma do ensino médio planejada pelo governo federal. O plano era ver as escolas adaptarem seus currículos em 2019 para adequá-los à Base até 2020. Procurado, o MEC afirmou que cabe aos conselheiros do CNE a análise das críticas.

Callegari renunciou ontem à presidência da comissão do CNE responsável por analisar a BNCC do ensino médio. Para seu lugar, foi eleito Eduardo Deschamps, que também comanda o CNE.

— A Base não deve ser aprovada até dezembro de forma alguma — defende Callegari. — Como estamos discutindo o ensino médio, é fundamental dialogar com os estados, porque eles têm a responsabilidade de implementar o que for resolvido. E, atualmente, dos 27 secretários de Educação, 20 acabaram de ser substituídos devido ao processo eleitoral. Desta forma, não é possível exigir deles compromissos de médio e longo prazo. O debate deve ser estendido às equipes que vão substitui-los no ano que vem.

Em sua carta, o sociólogo destaca que, de acordo com a nova legislação sobre o ensino médio, o conteúdo obrigatório das disciplinas foi reduzido “ao que couber em 1.800 horas, que corresponde a 60% da carga horária das escolas brasileiras”: “Pergunta-se, então: o que vai ficar de fora? (…) Quantos conhecimentos serão excluídos do campo dos direitos e obrigações e abandonados no terreno das incertezas?”.

A restrição é lembrada pelo professor de Políticas Educacionais da Universidade Federal do ABC, Fernando Cássio, que também é crítico do atual modelo em debate. Para ele, um dos principais defeitos do plano é ignorar a realidade orçamentária do setor educacional do país.

— A Base é irrealizável se não conseguimos atender a parâmetros mínimos de qualidade, como ter unidades de ensino com laboratório, quadras cobertas e um número razoável de alunos por classe — detalha Cássio, que também é membro do comitê paulista da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. — O debate atual ignora questões estruturais que deveriam ser priorizadas, porque exigem gasto público: a defasagem de salários, a elaboração de planos de carreira e a falta de infraestrutura escolar.

O Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) manifestou preocupação com a possibilidade de que a Base aumente a desigualdade entre as escolas de ensino médio. A expectativa é que o documento, ao elencar o que todos os estudantes têm direito a aprender, permita maior coerência entre as diversas políticas educacionais existentes.

Presidente do conselho do Cenpec responsável pela análise da BNCC, Anna Helena Altenfelder acredita que a proposta em debate tem “diversos pontos incompletos”, como o itinerário que deve ser seguido pelos alunos até a escolha da carreira que deseja seguir.

— De acordo com a lei do ensino médio, as escolas devem fornecer um conteúdo básico e, a partir daí, detalhar como desenvolverão cada área de conhecimento, para que os alunos escolhem aquela em que desejam se aprofundar. Mas ainda não está claro quais serão essas possibilidades — alerta. — É preciso discutir como apresentar esta trajetória de uma forma atraente para os jovens.

Divisão de disciplinas
Os educadores também ecoam a crítica de Callegari à falta de definições nítidas sobre o conteúdo de cada disciplina. Anna Helena acredita que, sem este esclarecimento, a qualidade de exames que testam as habilidades adquiridas no ensino médio, como o Enem, pode ser comprometida.

Diretor de Políticas Educacionais do Movimento Todos pela Educação, Olavo Nogueira Filho avalia que a Base ainda não acolhe quesitos como o incentivo ao estudo interdisciplinar e a promoção de trabalhos colaborativos entre os professores.

— O documento não deve ser aprovado de forma apressada. É preciso que os debates continuem ocorrendo — assinala. — A BNCC é uma política importante para definirmos outras, como o próprio formato do ensino médio e a formação de docentes, por isso precisamos garantir que ele promova melhorias nessa etapa escolar.

Eduardo Deschamps, agora à frente da comissão que examina a BNCC do ensino médio, nega a existência de um cronograma fixo para os trabalhos e evita rebater as críticas feitas pelos educadores ao documento.

— Primeiro quero saber o que as pessoas têm a dizer sobre cada tópico, para depois ter minha opinião. Não trabalho com a lógica de prazo. Quero um documento de qualidade e que seja aplicável, mas também não podemos nos comprometer com uma discussão que se arraste indefinidamente.

Fonte: Cenpec